O texto que agora
apresentamos pretende ilustrar alguns dos momentos vividos durante a Viagem
organizada pela AEEBNU as “Festas de Viana”. É um testemunho pessoal e, nesse
sentido, será um espaço onde de forma livre iremos criar e partilhar a nossa própria
experiência. O que conta, afinal, é que cada momento que vivemos nessa viagem nos
maravilhou com tudo e com o facto de a vida poder ainda ser assim.
Começa-se uma viagem. E o que se procura? O que se procura não se
sabe. A essência do começo é o mais
bonito de qualquer momento em qualquer coisa. Porque é no começo que está a
alma para tudo aquilo que se segue. Podemos dizer que em cada começo de uma
viagem há sempre alguma coisa que nos atravessa, um frenesim, uma exaltação, um
desejo de partir. Talvez só assim valha a pena viajar, talvez só assim o
viajante mantenha essa margem de incerteza que o torna humano num mundo em que parece
desencantado, frio, indiferente, talvez até mesmo hostil. Talvez toda a viagem seja
uma experiência mágica, ou outra coisa qualquer, mas será sempre aquilo a que
olhar do viajante se prende, não por mera curiosidade, que isso seria demasiado
fútil, mas para migrarmos para um tempo e um espaço onde dói menos.
Há um poema de Al Berto que se chama “Aprendiz de Viajante” e que diz isto:
“(…) A pouco e
pouco, aprendi que nenhum viajante vê o que os outros viajantes, ao passarem
pelos mesmos lugares, veem.
O olhar de cada
um, sobre as coisas do mundo é único, não se confunde
com nenhum outro.
Viajar, se não
cura a melancolia, pelo menos, purifica. Afasta o espírito do que é supérfluo e
inútil; e o corpo reencontra a harmonia perdida - entre o homem e a terra. (…)”
Este
aprendiz de viajante toca-me profundamente, porque mostra como cada um, de
acordo com a sua vivência pessoal, tem um olhar único sobre a viagem. Neste
ponto, podemos até pensar no viajante Marco Polo, das “Cidades Invisíveis” de
Ítalo Calvino. É ele que nos ensina o seguinte: um lugar é sempre “um lugar de
todos os possíveis” e que no início de uma viagem “tudo ainda nos espera”. Daí
que em certas cidades, “em certas deambulações, no desvio de uma rua tu vês
abrir-se diante de ti a surpresa de algo único, de raro, e talvez magnifico”. E adianta ainda que “acontece com as cidades o
que acontece com os sonhos: tudo o que é imaginável pode ser sonhado, mas o
sonho mais surpreendente é um enigma que dissimula um desejo, ou o medo, o seu
contrário “. Viajar é assim avançar no
interior de um segredo.
É altura de
avançar e de passar então ao vivido. Refira-se, entretanto, que não vamos apresentar
um guia, forçosamente mais informativo e objetivo que o nosso texto. Sendo
impossível escrever sobre todos os pormenores da viagem, o que temos a dizer,
se é que é possível dizer por palavras todas as riquíssimas experiências desta
viagem. Há as viagens geográficas e físicas dos locais visitados, há sobretudo
as viagens mentais e as impressões transmitidas por cada coisa que vimos, e há
ainda o fluxo aleatório e errático da nossa imaginação. O importante é se
escreva sobre a viagem para contrariar o fim da mesma.
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| Casa de Camilo Castelo Branco |
Sem hesitação, decidimo-nos
por começar pela visita à casa onde Camilo Castelo Branco viveu com Ana Plácido
e filhos, desde o inverno de 1863 até a sua morte em 1890, em São Miguel de
Seide, Vila Nova de Famalicão.
Logo à chegada, fomos recebidos por uma
senhora que ia ser a nossa guia dentro da casa. Seguimos o caminho que a guia
nos dava a ver em cada divisão da casa: os quartos dos filhos; o quarto de Ana
Plácido e de Camilo; o gabinete de trabalho, onde escritor deu vida a alguns dos
seus melhores livros, como o "Sarcófago de Inês"; “Os Serões”; As
Novelas do Minho”; A Brasileira de Prazins” e "Onde Está a Felicidade?".
A secretária original, repleta de manuscritos e utensílios de escrita, levando-nos
a imaginar o ambiente criativo do autor; as salas de Jantar e de estar; a
biblioteca; a cozinha que ilustra o quotidiano doméstico de Camilo e da sua
família, com utensílios e mobiliário da época.
Era impossível
não nos
deixarmos cativar pelo entusiasmo e pelo modo como a guia, em cada espaço da
casa, nos ia contando episódios, detalhes e segredos da vida e da obra do
escritor. Nesse percurso, ao olhar para cada objeto de Camilo, imaginava-o a
mover-se numa rede de afazeres quotidianos, de paixões, de angústias, de
preocupações, de ideias que ia partilhando com a sua esposa, Ana Plácido.
Na casa, para além
dos quartos, das salas, de alguns corredores, vimos as janelas abertas por onde
se viam as árvores, talvez um caminho por onde as pessoas o atravessavam
apressadas. Reparámos nas cortinas que um dia oscilaram com o vento. Um candeeiro que ficou há muito aceso. O
relógio que marcou o fluir da vida de Camilo e do seu último sol. Relógio que o
escritor decidiu descrever magistralmente no romance "Eusébio Macário”.
Uma casa é sempre
o nosso lugar de estar no mundo, aquele onde se fixam as nossas lembranças, as
nossas, alegrias, as nossas dores. Onde se representa, por exemplo, os sons de
uma tempestade, as cores de um entardecer, as noites amenas do verão, o cheiro
da terra e da vegetação.
Lembrámo-nos que a
casa de Seide também deixou marcas profundas em Agustina Bessa Luís, quando a
visitou em 1990. Ainda no exterior, é essa impressão de dor que sobressai:
“Entrava -se na
casa por uma escada modesta, de má cantaria; um patamar […] dava ao acesso da
vivenda de Seide um carácter profundamente melancólico. E a acácia que Jorge
ali plantara e um raio destruíra, […] ali estava lacerada, mas cumprindo a sua
obscura fecundidade. Há nas casas dos homens trágicos uma sensibilidade
própria”.
Saímos de Seide, ainda
com Camilo no nosso coração, em direção a Viana do Castelo. Estar nesta cidade
suscita-me um sentimento talvez parecido com o que acontece perante certas
amizades ou amores tranquilos, que se renovam sempre que voltamos a ver essas
pessoas. É uma cidade onde se respira uma atmosfera muito peculiar e tem um
espírito diferente de outras cidades onde já estive. Não sei exatamente em que
consiste essa atmosfera, se é por ser terra de boa gente, ter ar puro,
paisagens admiráveis, clima benigno. Não sei, mas passear nas ruas de Viana
deixa-me sempre feliz. Viana tem uma faceta mais humana que excede as nossas
expetativas. Além disso viajar para fora da nossa zona habitual é sempre bom,
melhora a nossa saúde mental e física, deixa-nos a sensação de que mudamos de
vida, mudamos de mundo. E ao viajar com a AEEBNU é ainda melhor porque também o
fazemos para encontrar, estar e conviver com amigos.
Viana do Castelo é
uma cidade onde o património histórico se desdobra em múltiplas expressões, de entre
essa riqueza visitámos alguns monumentos do século XVI, nomeadamente o Chafariz
dos paços do conselho, a Casa dos Costa Barros, a casa dos Abreu Távora,
as igrejas de São Domingos e da Senhora da Agonia. Do século XVIII, destaco a capela
solarenga dos Malheiros Reimão, situada no cimo da rua Gago Coutinho.
Durante a nossa
permanência na cidade, visitámos ainda o Museu de Artes Decorativas, o Museu do
Traje e o Museu da Fábrica de Chocolates. Estas visitas estavam integradas no
nosso programa. Quem visitou o Museu de Artes Decorativas não pôde deixar de
se congratular com a beleza das faianças da Fábrica de Louça de Viana (1774-1855),
dos azulejos e do mobiliário dos séculos XVII e XVIII. No Museu do Traje,
apreciámos o valor histórico e etnográfico do traje à Vianesa. Também passámos
pelo Museu Fábrica do Chocolate, onde ficámos a conhecer detalhes sobre a
história e o ciclo do grão do chocolate, desde a plantação em terras longínquas
até às tabletes e bombons tão apreciados por nós.
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| Mordomas |
Tenho de terminar
este texto, mas não posso fazê-lo sem falar das Festas da Senhora da Agonia.
Não há gente mais festeira do que as gentes de Viana. Basta olhar para a
iluminação das ruas da cidade e para os contornos luminosos das suas capelas e
ermidas. Quando a noite caí parecem presépios encantados.
Há quem diga que a
beleza é uma coisa sem nome. No entanto, no Desfile da Mordomia e no Cortejo
Histórico e Etnográfico a beleza teve nome: brilho, forma, cor e festa. O que
vivemos nessas duas tardes de agosto, dos dias 14 e 16, foi único, genuíno e
irrepetível. E há momentos cuja beleza às vezes muda a nossa rota dos ventos,
ainda que seja por breves instantes.
“Os trajos
pitorescos do Minho, as cores garridas dos lenços e saias, a alvura das camisas
de linho, o brilho dos cordoes e das arrecadas, as festas de viola e clarinete
acompanhando violancetes, davam a toda esta multidão, que se enfileirava de um e
de outro lado da estrada (…) complemento de todos os regozijos populares no
Minho, um ar de satisfação indescritível”. Isto disse Júlio Dinis, em “A Morgadinha
dos Canaviais (p. 149).
Tenho mesmo de
terminar este testemunho, e há um imenso circuito que fica por descrever: a passagem
por Vila do Conde, cidade onde o património histórico é riquíssimo. De entre essa
riqueza destacam-se as casas manuelinas, erguidas no início do século XVI,
cujos detalhes arquitetónicos e decorativos conferem à cidade uma identidade própria.
A visita à casa museu de José Régio, na
qual foi possível ver os espaços da casa, bem como várias fotografias individuais
que representam diferentes fases da vida do escritor, fotografias de alguns
membros da sua família. Vimos ainda o gosto que partilhava com o seu irmão
Júlio pelo desenho. Vimos também alguns espelhos de Régio nos quais ele se via “como
um doido que por acaso nasceu com juízo”.
Régio não foi apenas
um homem religioso, embora ele tenha dito: “não fui outra coisa senão um homem
religioso, tudo o mais foram arredores de mim”, talvez, por isso, o seu centro
de interesse tenha sido o de colecionar arte sacra. E isso é visível na casa: as fabulosas
coleções de cristos e da Virgem Maria.
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| Monte de Santa Luzia |
Fica ainda por
falar da emocionante subida ao Monte de Santa Luzia. Monte sobranceiro à cidade
de Viana do Castelo, com vistas de nos tirar o fôlego, onde há cerca de três
mil anos viveram povos Celtas e Iberos.
Se quisesse
escolher um símbolo para elogiar as iniciativas da AEBNU, escolheria estes versos
de José Mário Branco:
Há sempre qualquer coisa que está para acontecer,
Qualquer coisa que eu devia perceber,
(…)
Porquê, não sei,
Mas sei
Que essa coisa é que é linda!
A primeira e
última palavra é: obrigada! Obrigada à Dona Olga, ao Sr. Ribeiro Gonçalves, à
AEEBNU. É a palavra mais fácil, é a mais justa, é a mais espontânea.
Leonor Santos