sexta-feira, 8 de maio de 2026

Viagem a Mangualde

 (Publicado no Contacto (boletim da AAE do BNU) de abril)

Ao redigir um texto, não sabemos que palavras nos fazem mais falta, que portas se abrem enquanto o escrevemos, a sós connosco, em momentos de luz e de sombra, à espera de encontrar nesse processo um fio de inspiração.

O melhor é fazer uma pausa, abrir um dicionário e escolher uma letra, uma letra qualquer, pode ser a letra L, com a palavra “Leveza” (s. f). Registamos alguns significados, como por exemplo, “qualidade do que é leve, ágil, divertido, alegre; …”. Será esta a palavra oportuna que vem em nosso auxílio para a escrita deste texto? Será isto um delírio nosso? Uma só palavra pode dar lugar a vários sentidos, e a várias construções possíveis. E, às vezes, basta uma palavra, uma palavra apenas para mudar o rumo de uma vida, para o bem ou para o mal.

Não é o caso da palavra “leveza” que opera como uma espécie de metáfora, guiada pela ideia de “voo da ave”.  Leveza tem “o pássaro: e a sua sombra voante, mais leve. / E o que se lembra, ouvindo-se deslizar o seu canto, mais leve” (Cecília Meireles).

A partir daqui, resta o dizer do texto – isto é o essencial: falar da viagem que fizemos, com a AAE BNU, entre o Arco do Cego e Mangualde. Mas falar desta viagem é falar de leveza. Porque o texto não se deve preocupar, apenas, com a apresentação da paisagem, com a narrativa das coisas, com a história do trajeto, mas deve expressar sobretudo as emoções que experimentamos durante a viagem. É como na utopia, só o que é vivido conta, só a amizade conta, e para isso não é preciso bússola.   

O autocarro está pronto para seguir viagem – e, no interior, tudo começa a acontecer: as boas-vindas da Dona Olga, a gargalhada e toda uma animação inventada pela nossa Diretora, para tornar leve o caminho a percorrer. Todavia, no exterior, chove. Não é a “chuva oblíqua” do poema emblemático de Álvaro de Campos, pois aí o tema nem sequer é a chuva, mas a busca de si mesmo, através de um complexo jogo de paradoxos. Também não é “a chuva abandonada” de Vergílio Ferreira, onde o lugar do sujeito é aquele que expressa a melancolia face à “memória estranha de outrora”. Nem tão pouco a chuva morrente de Camilo Pessanha, triste no seu modo de cair, de “cair sempre a cair", de escorrer da beira dos telhados. “Como chove!”, disse Bernardo Soares, no seu “Livro do Desassossego” “as biqueiras golfam torrentes mínimas de águas sempre súbitas”.

Sim, chove, mas isso que importa se a chuva que caí não é triste nem alegre. É apenas chuva que desliza pelos vidros do autocarro, numa estranha neutralidade, indiferente ao olhar de quem a observava.  Olhar as gotículas de água seguirem, em desalinho, o seu curso, rolando, rolando até desaparecerem, leva-nos a pensar isto: é bom saber optar pelas coisas da vida que nos deixam memórias de alegria.

No interior do autocarro, há todo um idioma leve de olhares que se cruzam, sorriem e manifestam afetos. A viagem continua… E se alguém adormecer, uma deusa virá segurar-lhe as pálpebras.

Entretanto, quase sem darmos por isso, chegamos ao topo do monte da Senhora do Castelo, onde fica o nosso hotel. E deparamo-nos com um cenário semelhante ao que Thomas Mann descreve na “Montanha Mágica” sobre Davos: “O céu abria-se parcialmente. Nuvens de um cinzento-azulado rasgavam-se e deixavam passar alguns raios de sol que tingiam a paisagem de azul. A seguir, o tempo serenou por completo. Reinava (…) um frio límpido, um esplendor invernal, puro e constante. Era maravilhoso o panorama que se via (…)”. Sim, “era maravilhoso o panorama que se via”, do hotel. Da janela do quarto, tínhamos uma imagem vertical sobre a encosta que nos dava a sensação de flutuarmos.

À noite, durante o jantar, abrimos o mapa da sala para dançar. “Faz-te dançarino se queres ser leve e profundo no pensar”, terá dito Nietzsche. Na verdade, na dança o corpo torna-se sopro, mas será que o nosso pensar é mais profundo se nos fizermos dançarinos? Não sei… o que sei é que, na dança, procuramos criar espaços e gestos de diversas possibilidades, seguindo um fio secreto, onde tentamos encontrar o movimento ideal.

O dia apaga as promessas da noite. E, ao acordarmos, há uma luz ténue, em tons de prata no céu. Não chove! Às vezes, basta um breve raio de sol na natureza e, aos nossos olhos, tudo se transforma! Essa mudança também leva a uma mudança nos nossos sentimentos e no nosso humor. Como se o mundo da luz e das cores influenciasse os nossos sentidos. E sabemos que influencia.

Após o pequeno-almoço, subimos até ao Miradouro da Senhora do Castelo. Daqui, vê-se uma paisagem coberta por uma névoa fina que nos faz lembrar uma pintura de Caspar David Friedrich. O olho e a fantasia sentem-se atraídos mais pela distância imprecisa do que pelo que se apresenta perto e distinto. A sensação de infinito e de sublime fazem-nos sentir pequeninos perante tanta beleza. “Lá longe, a Serra da Estrela”, isto diz Manuel Louvadeus, protagonista do romance “Quando os lobos uivam” de Aquilino Ribeiro: “nem sei o que parece… uma gigantona que se cobriu com uma capucha e se deitou ao comprido, cabeça para a Guarda, pés para o mar. Fita a gente, como se a gente olhasse para ela. Quase se podia meter paleio de cá para lá. Havia de dizê-las bonitas se soubesse contar o que tem visto pelos tempos fora em céu e terra!”. É preciso ter uma experiência profunda da Serra, conhecer-lhe todos os caminhos e todas as possibilidades para falar assim de um sítio que tem o privilégio de ser o ponto mais alto do país. É por isso uma entidade singular que molda os homens que a habitam, tal como o mar molda os homens do litoral. 

A marcar também esta viagem, foi a visita a uma casa senhorial, que a Dona Olga, felizmente, conseguiu incluir no programa. A casa identificada historicamente “palácio dos Condes de Anadia” representa um dos relevantes bens culturais e patrimoniais do Barroco. A sua construção teve início no primeiro quartel do século XVIII, no município de Mangualde.

De acordo com o guia que conduziu a visita no interior da casa, ficámos a saber que estas propriedades não eram apenas residências, mas também centros de poder e de influência. Com efeito, em alguns espaços da casa foi possível ver retratos de reis e rainhas que foram recibos, no palácio, pelos condes de Anadia, nomeadamente, o Rei Dom Luís I, a Rainha Dona Maria Pia e a Dona Amália. Curiosamente, existe também um retrato do general napoleónico Massena, que terá ocupado a casa, em 1810, durante a terceira invasão francesa a Portugal.

Dentro da casa, o que mais nos chamou a atenção foi a coleção de azulejos. A escadaria da entrada está decorada com painéis que representam cenas alusivas à caça, a trabalhos agrícolas e a figuras mitológicas. No salão de baile, fomos surpreendidos com painéis que apresentam “O Mundo às Avessas”, uma iconografia maravilhosa que desafia o status quo da sociedade. Exemplo disso são as figurações das cidades no céu, os animais a caçar e a subjugar os homens, os filhos a castigarem e alimentarem os pais.

ENQUANTO VAMOS

“É só a vida tudo o que não temos

ou deixamos para trás enquanto vamos

e nada mais nos falta nem buscamos

porque é a vida só o que não temos” (Miguel Serras Pereira)

~Então o melhor é irmos, irmos sempre com a nossa AAE BNU.

Leonor Santos

quarta-feira, 29 de abril de 2026

“Como perder amigos rapidamente”

Robert Mapplethorpe
 Aos ex-amigos

“Como perder amigos rapidamente” é o título do mais recente livro de David Marçal, prestigiado cientista português. Ao lê-lo, estaquei e pus-me a imaginar modos cómicos, não de fazer amigos rapidamente, mas de os perder rapidamente. É tristemente verdade que todos nós já tivemos amigos que, pura e simplesmente, deixaram de estar na nossa onda, ou não nos apreciam, ou os desiludimos ou nos desiludiram. Neste caso, é curioso, é mesmo comovente ver até que ponto um amigo próximo, se pode transformar, de um momento para o outro, num ex-amigo.

Reparem que não me refiro àqueles amigos que vão e vêm, estão presentes na nossa vida, anos e anos, mas aos poucos, com o afastamento, com a falta de contacto, parece que os perdemos definitivamente. Porém, um dia, depois de vinte anos de ausência, um telefonema, uma mensagem, um convite para nos vermos, abraçamo-nos, com enorme alegria e sem qualquer ressentimento. A par disso, há ainda aquelas pessoas de quem gostamos, que, por circunstâncias várias, vão desaparecendo da nossa vida. Também temos amigos, com suficiente subtileza de espírito, que na incompreensão de um equívoco ou de um mal-entendido abrem espaço para o diálogo e, na liquidez de uma conversa, dilui-se tudo o que poderia impedir uma amizade duradoura.

Mas entendamo-nos bem: quando se trata de um ex-amigo, a situação é completamente diferente. Desde logo, o fim de uma amizade surge sempre por alguma razão e nunca por razão nenhuma. O que há de muito estranho, reconheço, é que tudo termina num ápice, como a implosão de um edifício em ruínas. Esse momento, tão rápido, carrega consigo toda uma série de circunstâncias, um complexo de emoções e de ideias que só o distanciamento permite compreender algumas delas.

Pergunto-me o que é que resta depois. E é aqui que devo dizer o mais importante: o fim de uma amizade é uma geografia de perda, um capítulo que se fecha para sempre. Devia retrair-me a dizer para sempre, mas tenho um sentimento muito profundo de que quando uma amizade termina todas as palavras são inúteis e erradas, exceto o silêncio. Enquanto isso, nós podemos falar de um ex-marido, de um ex-namorado, mas nunca, nunca falamos de um ex-amigo. Podemos então dizer que se existisse uma matemática da ex amizade, enunciaria mais coisa menos coisa, a seguinte equação: a probabilidade de uma reconciliação é igual ao seu grau de improbabilidade.

Leonor Santos


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Por terras do Alto Alentejo

 Começo este texto por agradecer a quem projetou e organizou esta viagem ao Alto Alentejo, em especial à Dona Olga, sempre disponível, sempre atenta, sempre ativa e sempre critica nos momentos certos. O altruísmo é talvez a palavra que melhor espelha e que mais justamente se aplica a quem se preocupa tanto em cuidar de tudo, para que a viagem corra o melhor possível, em benefício de todos. Não posso deixar de agradecer também ao nosso querido Presidente, o Sr. Ribeiro Gonçalves. É notável o seu cuidado discreto, mas útil e sempre presente e indispensável. Devemos tanto à Dona Olga e ao Sr. Ribeiro Gonçalves que sacrificam o seu quotidiano na dinamização de atividades que todos beneficiamos, não para se salvarem, como sugere o evangelho, mas nos salvar, como manda um evangelho ainda melhor.

Uma palavra também para todos os sócios que alinham nas iniciativas da Associação e com quem é sempre um prazer conviver. A conversa fluiu como "velhos (as)" amigos (as) sobre tudo e mais alguma coisa, normalmente sobre filhos, filhas, netos e netas, por vezes, sobre sonhos que ainda nos movem.

O dia estava lindo, quando saímos, pelas 8h00, da Rua do Arco do Cego em direção a Avis. No percurso, não nos fatigámos, nem cabeceámos a cabeça com sono, nem sentimos tédio. A Dona Olga e a nossa guia, Fernanda Alves, fizeram questão de nos manterem acordados. E isso foi bom. Assim, cruzámos a região alentejana, num deslumbramento de revelação. Vimos encantos particulares: a pura charneca rasa, aparentemente monótona, mas rica de segredos para descobrirmos. O melhor de tudo não foi, durante a viagem, ter desfrutado da emoção deste passeio, foi ter a oportunidade de meditar ao contemplar a paisagem de léguas e léguas de uma geografia única do nosso país. A manhã já vai a meio, e a luz intensa do sol permite distinguir as cores que ora são acastanhadas ora esverdeadas é a natureza que se revela com mais intensidade a esta hora do dia.

Sem darmos por isso, chegámos à vila de Avis. O autocarro entrou pela porta da vila e, de repente, vimos erguer-se uma flor branca e de luz que é Avis. É uma vila encantadora que fica no coração do Distrito de Portalegre. Esta visita era uma enorme promessa, não só porque a pequena vila medieval acolheu uma das mais emblemáticas Ordens Militares, como também foi a morada do Mestre de Avis desde 1364 até 1383.

Aceitemos, sem dificuldade, imaginar o Mestre de Avis sair a galope, do Convento de S. Bento em Avis, no dia 4 ou no dia 5 de dezembro de 1383, em direção a Lisboa, com o objetivo de matar o Conde Andeiro. Foi o que aconteceu no 06 de dezembro, nos aposentos de Leonor Teles. E, assim, teve início o período revolucionário que acabaria em 1385, levando D. João I, Mestre de Avis, ao trono.

O que ganhou particular relevo na visita à vila de Avis e ao Centro Interpretativo da Ordem de Avis foi termos ficado com a sensação de que Avis foi um sonho que Portugal sonhou e concretizou.

Depois desta visita, calcorreámos uma boa parte do antigo casario medieval, com as suas ruas estreitas e as típicas casas alentejanas. Nesse passeio, vimos uma mouraria antiga, na qual havia uma casa, onde terá vivido Dona Teresa Lourenço, mãe do Mestre de Avis, que o acompanhou, quando este, ainda criança, foi residir para Avis. Perguntei-me: o que terá levado D. Pedro I a “atirar” a sua ex-amante, Dona Teresa, para uma Mouraria?

A nossa visita pela vila de Avis terminou no miradouro do Mestre de Avis, com uma vista soberba sobre a parte nova da povoação que se vai estendendo para lá das muralhas medievais e sobre a imensa planície alentejana.

Saímos em direção a Sousel, onde almoçámos no restaurante “O Pinguinhas”. O ambiente era simples. Aqui e ali, a decoração evocava o Alentejo. A receção foi bastante calorosa e com imensa simpatia. E a comida, tipicamente alentejana, agradou bastante.


Entre as novidades de um dia bem passado em Sousel, à tarde, fomos visitar o Museu dos Cristos. Esta visita foi uma fonte de surpresas. Existem cristos de diversas proveniências, concebidos a partir de diversos formatos, técnicas, materiais, estilos e épocas. O que me maravilhou, sobretudo, foram alguns cristos em marfim indo-português dos séculos XVI e XVII. Estas peças estão ligadas à expansão portuguesa no continente indiano e revelam que Goa, capital do Estado do Índia portuguesa desde 1530, foi o centro de uma produção artística de mestres locais. Trata-se de peças que enriquecem o património artístico de uma vila pacata ainda pouco visitada.

No dia seguinte, durante a manhã ficámos no hotel e descobrimos que o mesmo estava cheio de surpresas e possibilidades cativantes, como por exemplo, visitas ao Centro Interpretativo do Cavalo de Puro-Sangue e ao Museu de Falcoaria. O hotel tinha uma localização excelente, para quem aprecia um ambiente e paisagem de carácter vincadamente rural. No espaço do hotel, fizemos passeios lúdicos, por trilhos que nos levaram a desfrutar do castanho-dourado da terra, dos verdes dos sobreiros, azinheiras e oliveiras centenárias. Caminhámos e nesse caminhar ouvíamos apenas os sons do campo, dos nossos corpos em movimento, dos pássaros, dos insetos e da folhagem. Lugares como este são pequenos pedaços de sentido que nos dão um outro recorte do universo.

À tarde, pelas 16 horas, fomos visitar o Centro de Interpretação da Batalha de Atoleiros, na vila de Fronteira. Muito haveria para contar sobre o que vimos e ouvimos a propósito da Batalha que teve no dia 6 de abril de 1384. Claro que a História precisa das imagens, das lendas e dos mitos para se alimentar deles. Foi e será sempre assim. O quadro das batalhas de Atoleiros não é diferente.

Pois a verdade é que fizemos uma viagem inesquecível pelos acontecimentos históricos da batalha de Atoleiros. Ficámos a saber que Atoleiros foi uma vitória brilhante do engenho dos portugueses sobre a força dos espanhóis. Ficámos ainda a saber os motivos que estiveram na origem desse sucesso:  a escolha do campo de batalha, a tática militar, de inspiração inglesa, utilizada por Nuno Álvares Pereira, e claro a valentia lusa. Esta batalha, apesar de não suscitar muito interesse à historiografia, contribuiu e muito para mudar a história de Portugal.

 Importa, também, referir o fascínio de vermos o belo e enigmático edifício que acolhe o Centro de Interpretação da Batalha dos Atoleiros, construído em sucessivas camadas de terra vermelha, o que evoca a tradição da construção em taipa, muito comum na arquitetura alentejana.

Não podemos terminar este relato sem falar da nossa visita a Estremoz. Atravessámos a sua praça do tamanho de uma herdade, para irmos visitar o Centro Interpretativo dos bonecos desta linda cidade. Infelizmente o tempo não deu para tudo, e, por isso, não nos foi possível visitar o Castelo de Estremoz, o Paço real de Dom Diniz, a Capela da Rainha Santa Isabel. Rainha que transformava pão em rosas. Ficou a promessa de voltarmos ao Alentejo.


Fomos maravilhar-nos com os bonecos de Estremoz. E não há termo melhor para descrever o que sentimos ao ver aquelas celebres figurinhas, expostas nas vitrines, com critério e muito gosto. Vimos bonecos que representam o quotidiano das gentes alentejanas, na sua vivência doméstica, rural e urbana. Vimos presépios lindíssimos, coretos, amazonas, cavaleiros, guardadores de rebanhos, músicos, índios, africanos, padres, freiras, bispos…  Cada boneco merecia uma demorada observação e análise.

Saramago também conheceu os bonecos de Estremoz e disse isto: “A Estremoz irás, seus bonecos verás, tua alma salvarás”. Não sei se salvamos a nossa alma, ao ver os bonecos de Estremoz, mas uma coisa é certa: “vê-los, encheu-nos a alma”.

Para terminarmos resta dizer isto: qualquer viagem programada pela AAENU desdobra-se sempre numa experiência inesquecível.

Leonor Santos

domingo, 1 de fevereiro de 2026

POR ESSE PAÍS ACIMA

O texto que agora apresentamos pretende ilustrar alguns dos momentos vividos durante a Viagem organizada pela AEEBNU as “Festas de Viana”. É um testemunho pessoal e, nesse sentido, será um espaço onde de forma livre iremos criar e partilhar a nossa própria experiência. O que conta, afinal, é que cada momento que vivemos nessa viagem nos maravilhou com tudo e com o facto de a vida poder ainda ser assim.

Começa-se uma viagem. E o que se procura? O que se procura não se sabe.  A essência do começo é o mais bonito de qualquer momento em qualquer coisa. Porque é no começo que está a alma para tudo aquilo que se segue. Podemos dizer que em cada começo de uma viagem há sempre alguma coisa que nos atravessa, um frenesim, uma exaltação, um desejo de partir. Talvez só assim valha a pena viajar, talvez só assim o viajante mantenha essa margem de incerteza que o torna humano num mundo em que parece desencantado, frio, indiferente, talvez até mesmo hostil. Talvez toda a viagem seja uma experiência mágica, ou outra coisa qualquer, mas será sempre aquilo a que olhar do viajante se prende, não por mera curiosidade, que isso seria demasiado fútil, mas para migrarmos para um tempo e um espaço onde dói menos.   

Há um poema de Al Berto que se chama “Aprendiz de Viajante” e que diz isto:

“(…) A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê o que os outros viajantes, ao passarem pelos mesmos lugares, veem.

O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo é único, não se confunde com nenhum outro.

Viajar, se não cura a melancolia, pelo menos, purifica. Afasta o espírito do que é supérfluo e inútil; e o corpo reencontra a harmonia perdida - entre o homem e a terra. (…)”

Este aprendiz de viajante toca-me profundamente, porque mostra como cada um, de acordo com a sua vivência pessoal, tem um olhar único sobre a viagem. Neste ponto, podemos até pensar no viajante Marco Polo, das “Cidades Invisíveis” de Ítalo Calvino. É ele que nos ensina o seguinte: um lugar é sempre “um lugar de todos os possíveis” e que no início de uma viagem “tudo ainda nos espera”. Daí que em certas cidades, “em certas deambulações, no desvio de uma rua tu vês abrir-se diante de ti a surpresa de algo único, de raro, e talvez magnifico”.  E adianta ainda que “acontece com as cidades o que acontece com os sonhos: tudo o que é imaginável pode ser sonhado, mas o sonho mais surpreendente é um enigma que dissimula um desejo, ou o medo, o seu contrário “.  Viajar é assim avançar no interior de um segredo.

É altura de avançar e de passar então ao vivido. Refira-se, entretanto, que não vamos apresentar um guia, forçosamente mais informativo e objetivo que o nosso texto. Sendo impossível escrever sobre todos os pormenores da viagem, o que temos a dizer, se é que é possível dizer por palavras todas as riquíssimas experiências desta viagem. Há as viagens geográficas e físicas dos locais visitados, há sobretudo as viagens mentais e as impressões transmitidas por cada coisa que vimos, e há ainda o fluxo aleatório e errático da nossa imaginação. O importante é se escreva sobre a viagem para contrariar o fim da mesma.

Casa de Camilo Castelo Branco

Sem hesitação, decidimo-nos por começar pela visita à casa onde Camilo Castelo Branco viveu com Ana Plácido e filhos, desde o inverno de 1863 até a sua morte em 1890, em São Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão.

Logo à chegada, fomos recebidos por uma senhora que ia ser a nossa guia dentro da casa. Seguimos o caminho que a guia nos dava a ver em cada divisão da casa: os quartos dos filhos; o quarto de Ana Plácido e de Camilo; o gabinete de trabalho, onde escritor deu vida a alguns dos seus melhores livros, como o "Sarcófago de Inês"; “Os Serões”; As Novelas do Minho”; A Brasileira de Prazins” e "Onde Está a Felicidade?". A secretária original, repleta de manuscritos e utensílios de escrita, levando-nos a imaginar o ambiente criativo do autor; as salas de Jantar e de estar; a biblioteca; a cozinha que ilustra o quotidiano doméstico de Camilo e da sua família, com utensílios e mobiliário da época.

Era impossível não nos deixarmos cativar pelo entusiasmo e pelo modo como a guia, em cada espaço da casa, nos ia contando episódios, detalhes e segredos da vida e da obra do escritor. Nesse percurso, ao olhar para cada objeto de Camilo, imaginava-o a mover-se numa rede de afazeres quotidianos, de paixões, de angústias, de preocupações, de ideias que ia partilhando com a sua esposa, Ana Plácido.

Na casa, para além dos quartos, das salas, de alguns corredores, vimos as janelas abertas por onde se viam as árvores, talvez um caminho por onde as pessoas o atravessavam apressadas. Reparámos nas cortinas que um dia oscilaram com o vento.  Um candeeiro que ficou há muito aceso. O relógio que marcou o fluir da vida de Camilo e do seu último sol. Relógio que o escritor decidiu descrever magistralmente no romance "Eusébio Macário”.

Uma casa é sempre o nosso lugar de estar no mundo, aquele onde se fixam as nossas lembranças, as nossas, alegrias, as nossas dores. Onde se representa, por exemplo, os sons de uma tempestade, as cores de um entardecer, as noites amenas do verão, o cheiro da terra e da vegetação.

Lembrámo-nos que a casa de Seide também deixou marcas profundas em Agustina Bessa Luís, quando a visitou em 1990. Ainda no exterior, é essa impressão de dor que sobressai:

“Entrava -se na casa por uma escada modesta, de má cantaria; um patamar […] dava ao acesso da vivenda de Seide um carácter profundamente melancólico. E a acácia que Jorge ali plantara e um raio destruíra, […] ali estava lacerada, mas cumprindo a sua obscura fecundidade. Há nas casas dos homens trágicos uma sensibilidade própria”.

Saímos de Seide, ainda com Camilo no nosso coração, em direção a Viana do Castelo. Estar nesta cidade suscita-me um sentimento talvez parecido com o que acontece perante certas amizades ou amores tranquilos, que se renovam sempre que voltamos a ver essas pessoas. É uma cidade onde se respira uma atmosfera muito peculiar e tem um espírito diferente de outras cidades onde já estive. Não sei exatamente em que consiste essa atmosfera, se é por ser terra de boa gente, ter ar puro, paisagens admiráveis, clima benigno. Não sei, mas passear nas ruas de Viana deixa-me sempre feliz. Viana tem uma faceta mais humana que excede as nossas expetativas. Além disso viajar para fora da nossa zona habitual é sempre bom, melhora a nossa saúde mental e física, deixa-nos a sensação de que mudamos de vida, mudamos de mundo. E ao viajar com a AEEBNU é ainda melhor porque também o fazemos para encontrar, estar e conviver com amigos.

Viana do Castelo é uma cidade onde o património histórico se desdobra em múltiplas expressões, de entre essa riqueza visitámos alguns monumentos do século XVI, nomeadamente o Chafariz dos paços do conselho, a Casa dos Costa Barros, a casa dos Abreu Távora, as igrejas de São Domingos e da Senhora da Agonia. Do século XVIII, destaco a capela solarenga dos Malheiros Reimão, situada no cimo da rua Gago Coutinho.

Durante a nossa permanência na cidade, visitámos ainda o Museu de Artes Decorativas, o Museu do Traje e o Museu da Fábrica de Chocolates. Estas visitas estavam integradas no nosso programa. Quem visitou o Museu de Artes Decorativas não pôde deixar de se congratular com a beleza das faianças da Fábrica de Louça de Viana (1774-1855), dos azulejos e do mobiliário dos séculos XVII e XVIII. No Museu do Traje, apreciámos o valor histórico e etnográfico do traje à Vianesa. Também passámos pelo Museu Fábrica do Chocolate, onde ficámos a conhecer detalhes sobre a história e o ciclo do grão do chocolate, desde a plantação em terras longínquas até às tabletes e bombons tão apreciados por nós.

Mordomas
Tenho de terminar este texto, mas não posso fazê-lo sem falar das Festas da Senhora da Agonia. Não há gente mais festeira do que as gentes de Viana. Basta olhar para a iluminação das ruas da cidade e para os contornos luminosos das suas capelas e ermidas. Quando a noite caí parecem presépios encantados.

Há quem diga que a beleza é uma coisa sem nome. No entanto, no Desfile da Mordomia e no Cortejo Histórico e Etnográfico a beleza teve nome: brilho, forma, cor e festa. O que vivemos nessas duas tardes de agosto, dos dias 14 e 16, foi único, genuíno e irrepetível. E há momentos cuja beleza às vezes muda a nossa rota dos ventos, ainda que seja por breves instantes. 

“Os trajos pitorescos do Minho, as cores garridas dos lenços e saias, a alvura das camisas de linho, o brilho dos cordoes e das arrecadas, as festas de viola e clarinete acompanhando violancetes, davam a toda esta multidão, que se enfileirava de um e de outro lado da estrada (…) complemento de todos os regozijos populares no Minho, um ar de satisfação indescritível”. Isto disse Júlio Dinis, em “A Morgadinha dos Canaviais (p. 149).

Tenho mesmo de terminar este testemunho, e há um imenso circuito que fica por descrever: a passagem por Vila do Conde, cidade onde o património histórico é riquíssimo. De entre essa riqueza destacam-se as casas manuelinas, erguidas no início do século XVI, cujos detalhes arquitetónicos e decorativos conferem à cidade uma identidade própria.  A visita à casa museu de José Régio, na qual foi possível ver os espaços da casa, bem como várias fotografias individuais que representam diferentes fases da vida do escritor, fotografias de alguns membros da sua família. Vimos ainda o gosto que partilhava com o seu irmão Júlio pelo desenho. Vimos também alguns espelhos de Régio nos quais ele se via “como um doido que por acaso nasceu com juízo”.

Régio não foi apenas um homem religioso, embora ele tenha dito: “não fui outra coisa senão um homem religioso, tudo o mais foram arredores de mim”, talvez, por isso, o seu centro de interesse tenha sido o de colecionar arte sacra.  E isso é visível na casa: as fabulosas coleções de cristos e da Virgem Maria.

Monte de Santa Luzia
Fica ainda por falar da emocionante subida ao Monte de Santa Luzia. Monte sobranceiro à cidade de Viana do Castelo, com vistas de nos tirar o fôlego, onde há cerca de três mil anos viveram povos Celtas e Iberos.

Se quisesse escolher um símbolo para elogiar as iniciativas da AEBNU, escolheria estes versos de José Mário Branco:

Há sempre qualquer coisa que está para acontecer,

Qualquer coisa que eu devia perceber,

(…)

Porquê, não sei,

Mas sei

Que essa coisa é que é linda!

A primeira e última palavra é: obrigada! Obrigada à Dona Olga, ao Sr. Ribeiro Gonçalves, à AEEBNU. É a palavra mais fácil, é a mais justa, é a mais espontânea.

Leonor Santos 

sábado, 21 de dezembro de 2024

Numa tarde qualquer de dezembro

imagem de Catrin Welz-Stein

Numa tarde qualquer de dezembro, estava eu muito sossegadinha, em casa, quando ouvi bater à porta. Eras tu. Perguntaste-me sem peneiras:  “Fazes anos hoje, não fazes?”. Mas não, não fazia. Não me trouxeste flores, nem uma caixa de bombons. Deves ter achado isso uma coisa foleira. Tiraste do bolso umas letras às cores. Primeiro um A, o primeiro da palavra A+M+A+R. A seguir um M, o único de amar. Depois outro A. O segundo de Amar. E por fim o R, o R do fim de amar. Este gesto pareceu-me equivalente ao que se passa no domínio dos sonhos: tudo o que é imaginável, dizem, pode ser sonhado, mas isto nem em sonhos me tinha passado pela cabeça. Numa penada, todo o enigma ficou transparente para o olhar como uma libelinha. Em silêncio, olhava-te muito nos olhos, especada de espanto. Nisto chegou a minha mãe e tu voaste dali para fora e as letras voaram contigo.

Éramos adolescentes e não tínhamos qualquer história. Além disso, na minha geometria sobre o Amor, eu era uma pessoa impreparada para amar. Por isso, aquilo, para mim, teve um carácter de novidade tão grande que me pareceu uma cena saída de um filme de ficção científica.

O que te posso dizer é que aquele teatro que fizeste à minha porta “mexeu comigo”. Fiquei convencida de que estávamos unidos por uma paixão súbita, única e secreta. Essa certeza era bela, mas o que fizeste aproximou-nos e afastou-nos, tudo ao mesmo tempo: passei a evitar cruzar-me contigo e tu, durante muito tempo, não trocaste uma única palavra comigo. Daí que a incerteza de tudo fosse ainda mais bela.

 Leonor