sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Por terras do Alto Alentejo

 Começo este texto por agradecer a quem projetou e organizou esta viagem ao Alto Alentejo, em especial à Dona Olga, sempre disponível, sempre atenta, sempre ativa e sempre critica nos momentos certos. O altruísmo é talvez a palavra que melhor espelha e que mais justamente se aplica a quem se preocupa tanto em cuidar de tudo, para que a viagem corra o melhor possível, em benefício de todos. Não posso deixar de agradecer também ao nosso querido Presidente, o Sr. Ribeiro Gonçalves. É notável o seu cuidado discreto, mas útil e sempre presente e indispensável. Devemos tanto à Dona Olga e ao Sr. Ribeiro Gonçalves que sacrificam o seu quotidiano na dinamização de atividades que todos beneficiamos, não para se salvarem, como sugere o evangelho, mas nos salvar, como manda um evangelho ainda melhor.

Uma palavra também para todos os sócios que alinham nas iniciativas da Associação e com quem é sempre um prazer conviver. A conversa fluiu como "velhos (as)" amigos (as) sobre tudo e mais alguma coisa, normalmente sobre filhos, filhas, netos e netas, por vezes, sobre sonhos que ainda nos movem.

O dia estava lindo, quando saímos, pelas 8h00, da Rua do Arco do Cego em direção a Avis. No percurso, não nos fatigámos, nem cabeceámos a cabeça com sono, nem sentimos tédio. A Dona Olga e a nossa guia, Fernanda Alves, fizeram questão de nos manterem acordados. E isso foi bom. Assim, cruzámos a região alentejana, num deslumbramento de revelação. Vimos encantos particulares: a pura charneca rasa, aparentemente monótona, mas rica de segredos para descobrirmos. O melhor de tudo não foi, durante a viagem, ter desfrutado da emoção deste passeio, foi ter a oportunidade de meditar ao contemplar a paisagem de léguas e léguas de uma geografia única do nosso país. A manhã já vai a meio, e a luz intensa do sol permite distinguir as cores que ora são acastanhadas ora esverdeadas é a natureza que se revela com mais intensidade a esta hora do dia.

Sem darmos por isso, chegámos à vila de Avis. O autocarro entrou pela porta da vila e, de repente, vimos erguer-se uma flor branca e de luz que é Avis. É uma vila encantadora que fica no coração do Distrito de Portalegre. Esta visita era uma enorme promessa, não só porque a pequena vila medieval acolheu uma das mais emblemáticas Ordens Militares, como também foi a morada do Mestre de Avis desde 1364 até 1383.

Aceitemos, sem dificuldade, imaginar o Mestre de Avis sair a galope, do Convento de S. Bento em Avis, no dia 4 ou no dia 5 de dezembro de 1383, em direção a Lisboa, com o objetivo de matar o Conde Andeiro. Foi o que aconteceu no 06 de dezembro, nos aposentos de Leonor Teles. E, assim, teve início o período revolucionário que acabaria em 1385, levando D. João I, Mestre de Avis, ao trono.

O que ganhou particular relevo na visita à vila de Avis e ao Centro Interpretativo da Ordem de Avis foi termos ficado com a sensação de que Avis foi um sonho que Portugal sonhou e concretizou.

Depois desta visita, calcorreámos uma boa parte do antigo casario medieval, com as suas ruas estreitas e as típicas casas alentejanas. Nesse passeio, vimos uma mouraria antiga, na qual havia uma casa, onde terá vivido Dona Teresa Lourenço, mãe do Mestre de Avis, que o acompanhou, quando este, ainda criança, foi residir para Avis. Perguntei-me: o que terá levado D. Pedro I a “atirar” a sua ex-amante, Dona Teresa, para uma Mouraria?

A nossa visita pela vila de Avis terminou no miradouro do Mestre de Avis, com uma vista soberba sobre a parte nova da povoação que se vai estendendo para lá das muralhas medievais e sobre a imensa planície alentejana.

Saímos em direção a Sousel, onde almoçámos no restaurante “O Pinguinhas”. O ambiente era simples. Aqui e ali, a decoração evocava o Alentejo. A receção foi bastante calorosa e com imensa simpatia. E a comida, tipicamente alentejana, agradou bastante.


Entre as novidades de um dia bem passado em Sousel, à tarde, fomos visitar o Museu dos Cristos. Esta visita foi uma fonte de surpresas. Existem cristos de diversas proveniências, concebidos a partir de diversos formatos, técnicas, materiais, estilos e épocas. O que me maravilhou, sobretudo, foram alguns cristos em marfim indo-português dos séculos XVI e XVII. Estas peças estão ligadas à expansão portuguesa no continente indiano e revelam que Goa, capital do Estado do Índia portuguesa desde 1530, foi o centro de uma produção artística de mestres locais. Trata-se de peças que enriquecem o património artístico de uma vila pacata ainda pouco visitada.

No dia seguinte, durante a manhã ficámos no hotel e descobrimos que o mesmo estava cheio de surpresas e possibilidades cativantes, como por exemplo, visitas ao Centro Interpretativo do Cavalo de Puro-Sangue e ao Museu de Falcoaria. O hotel tinha uma localização excelente, para quem aprecia um ambiente e paisagem de carácter vincadamente rural. No espaço do hotel, fizemos passeios lúdicos, por trilhos que nos levaram a desfrutar do castanho-dourado da terra, dos verdes dos sobreiros, azinheiras e oliveiras centenárias. Caminhámos e nesse caminhar ouvíamos apenas os sons do campo, dos nossos corpos em movimento, dos pássaros, dos insetos e da folhagem. Lugares como este são pequenos pedaços de sentido que nos dão um outro recorte do universo.

À tarde, pelas 16 horas, fomos visitar o Centro de Interpretação da Batalha de Atoleiros, na vila de Fronteira. Muito haveria para contar sobre o que vimos e ouvimos a propósito da Batalha que teve no dia 6 de abril de 1384. Claro que a História precisa das imagens, das lendas e dos mitos para se alimentar deles. Foi e será sempre assim. O quadro das batalhas de Atoleiros não é diferente.

Pois a verdade é que fizemos uma viagem inesquecível pelos acontecimentos históricos da batalha de Atoleiros. Ficámos a saber que Atoleiros foi uma vitória brilhante do engenho dos portugueses sobre a força dos espanhóis. Ficámos ainda a saber os motivos que estiveram na origem desse sucesso:  a escolha do campo de batalha, a tática militar, de inspiração inglesa, utilizada por Nuno Álvares Pereira, e claro a valentia lusa. Esta batalha, apesar de não suscitar muito interesse à historiografia, contribuiu e muito para mudar a história de Portugal.

 Importa, também, referir o fascínio de vermos o belo e enigmático edifício que acolhe o Centro de Interpretação da Batalha dos Atoleiros, construído em sucessivas camadas de terra vermelha, o que evoca a tradição da construção em taipa, muito comum na arquitetura alentejana.

Não podemos terminar este relato sem falar da nossa visita a Estremoz. Atravessámos a sua praça do tamanho de uma herdade, para irmos visitar o Centro Interpretativo dos bonecos desta linda cidade. Infelizmente o tempo não deu para tudo, e, por isso, não nos foi possível visitar o Castelo de Estremoz, o Paço real de Dom Diniz, a Capela da Rainha Santa Isabel. Rainha que transformava pão em rosas. Ficou a promessa de voltarmos ao Alentejo.


Fomos maravilhar-nos com os bonecos de Estremoz. E não há termo melhor para descrever o que sentimos ao ver aquelas celebres figurinhas, expostas nas vitrines, com critério e muito gosto. Vimos bonecos que representam o quotidiano das gentes alentejanas, na sua vivência doméstica, rural e urbana. Vimos presépios lindíssimos, coretos, amazonas, cavaleiros, guardadores de rebanhos, músicos, índios, africanos, padres, freiras, bispos…  Cada boneco merecia uma demorada observação e análise.

Saramago também conheceu os bonecos de Estremoz e disse isto: “A Estremoz irás, seus bonecos verás, tua alma salvarás”. Não sei se salvamos a nossa alma, ao ver os bonecos de Estremoz, mas uma coisa é certa: “vê-los, encheu-nos a alma”.

Para terminarmos resta dizer isto: qualquer viagem programada pela AAENU desdobra-se sempre numa experiência inesquecível.

Leonor Santos

domingo, 1 de fevereiro de 2026

POR ESSE PAÍS ACIMA

O texto que agora apresentamos pretende ilustrar alguns dos momentos vividos durante a Viagem organizada pela AEEBNU as “Festas de Viana”. É um testemunho pessoal e, nesse sentido, será um espaço onde de forma livre iremos criar e partilhar a nossa própria experiência. O que conta, afinal, é que cada momento que vivemos nessa viagem nos maravilhou com tudo e com o facto de a vida poder ainda ser assim.

Começa-se uma viagem. E o que se procura? O que se procura não se sabe.  A essência do começo é o mais bonito de qualquer momento em qualquer coisa. Porque é no começo que está a alma para tudo aquilo que se segue. Podemos dizer que em cada começo de uma viagem há sempre alguma coisa que nos atravessa, um frenesim, uma exaltação, um desejo de partir. Talvez só assim valha a pena viajar, talvez só assim o viajante mantenha essa margem de incerteza que o torna humano num mundo em que parece desencantado, frio, indiferente, talvez até mesmo hostil. Talvez toda a viagem seja uma experiência mágica, ou outra coisa qualquer, mas será sempre aquilo a que olhar do viajante se prende, não por mera curiosidade, que isso seria demasiado fútil, mas para migrarmos para um tempo e um espaço onde dói menos.   

Há um poema de Al Berto que se chama “Aprendiz de Viajante” e que diz isto:

“(…) A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê o que os outros viajantes, ao passarem pelos mesmos lugares, veem.

O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo é único, não se confunde com nenhum outro.

Viajar, se não cura a melancolia, pelo menos, purifica. Afasta o espírito do que é supérfluo e inútil; e o corpo reencontra a harmonia perdida - entre o homem e a terra. (…)”

Este aprendiz de viajante toca-me profundamente, porque mostra como cada um, de acordo com a sua vivência pessoal, tem um olhar único sobre a viagem. Neste ponto, podemos até pensar no viajante Marco Polo, das “Cidades Invisíveis” de Ítalo Calvino. É ele que nos ensina o seguinte: um lugar é sempre “um lugar de todos os possíveis” e que no início de uma viagem “tudo ainda nos espera”. Daí que em certas cidades, “em certas deambulações, no desvio de uma rua tu vês abrir-se diante de ti a surpresa de algo único, de raro, e talvez magnifico”.  E adianta ainda que “acontece com as cidades o que acontece com os sonhos: tudo o que é imaginável pode ser sonhado, mas o sonho mais surpreendente é um enigma que dissimula um desejo, ou o medo, o seu contrário “.  Viajar é assim avançar no interior de um segredo.

É altura de avançar e de passar então ao vivido. Refira-se, entretanto, que não vamos apresentar um guia, forçosamente mais informativo e objetivo que o nosso texto. Sendo impossível escrever sobre todos os pormenores da viagem, o que temos a dizer, se é que é possível dizer por palavras todas as riquíssimas experiências desta viagem. Há as viagens geográficas e físicas dos locais visitados, há sobretudo as viagens mentais e as impressões transmitidas por cada coisa que vimos, e há ainda o fluxo aleatório e errático da nossa imaginação. O importante é se escreva sobre a viagem para contrariar o fim da mesma.

Casa de Camilo Castelo Branco

Sem hesitação, decidimo-nos por começar pela visita à casa onde Camilo Castelo Branco viveu com Ana Plácido e filhos, desde o inverno de 1863 até a sua morte em 1890, em São Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão.

Logo à chegada, fomos recebidos por uma senhora que ia ser a nossa guia dentro da casa. Seguimos o caminho que a guia nos dava a ver em cada divisão da casa: os quartos dos filhos; o quarto de Ana Plácido e de Camilo; o gabinete de trabalho, onde escritor deu vida a alguns dos seus melhores livros, como o "Sarcófago de Inês"; “Os Serões”; As Novelas do Minho”; A Brasileira de Prazins” e "Onde Está a Felicidade?". A secretária original, repleta de manuscritos e utensílios de escrita, levando-nos a imaginar o ambiente criativo do autor; as salas de Jantar e de estar; a biblioteca; a cozinha que ilustra o quotidiano doméstico de Camilo e da sua família, com utensílios e mobiliário da época.

Era impossível não nos deixarmos cativar pelo entusiasmo e pelo modo como a guia, em cada espaço da casa, nos ia contando episódios, detalhes e segredos da vida e da obra do escritor. Nesse percurso, ao olhar para cada objeto de Camilo, imaginava-o a mover-se numa rede de afazeres quotidianos, de paixões, de angústias, de preocupações, de ideias que ia partilhando com a sua esposa, Ana Plácido.

Na casa, para além dos quartos, das salas, de alguns corredores, vimos as janelas abertas por onde se viam as árvores, talvez um caminho por onde as pessoas o atravessavam apressadas. Reparámos nas cortinas que um dia oscilaram com o vento.  Um candeeiro que ficou há muito aceso. O relógio que marcou o fluir da vida de Camilo e do seu último sol. Relógio que o escritor decidiu descrever magistralmente no romance "Eusébio Macário”.

Uma casa é sempre o nosso lugar de estar no mundo, aquele onde se fixam as nossas lembranças, as nossas, alegrias, as nossas dores. Onde se representa, por exemplo, os sons de uma tempestade, as cores de um entardecer, as noites amenas do verão, o cheiro da terra e da vegetação.

Lembrámo-nos que a casa de Seide também deixou marcas profundas em Agustina Bessa Luís, quando a visitou em 1990. Ainda no exterior, é essa impressão de dor que sobressai:

“Entrava -se na casa por uma escada modesta, de má cantaria; um patamar […] dava ao acesso da vivenda de Seide um carácter profundamente melancólico. E a acácia que Jorge ali plantara e um raio destruíra, […] ali estava lacerada, mas cumprindo a sua obscura fecundidade. Há nas casas dos homens trágicos uma sensibilidade própria”.

Saímos de Seide, ainda com Camilo no nosso coração, em direção a Viana do Castelo. Estar nesta cidade suscita-me um sentimento talvez parecido com o que acontece perante certas amizades ou amores tranquilos, que se renovam sempre que voltamos a ver essas pessoas. É uma cidade onde se respira uma atmosfera muito peculiar e tem um espírito diferente de outras cidades onde já estive. Não sei exatamente em que consiste essa atmosfera, se é por ser terra de boa gente, ter ar puro, paisagens admiráveis, clima benigno. Não sei, mas passear nas ruas de Viana deixa-me sempre feliz. Viana tem uma faceta mais humana que excede as nossas expetativas. Além disso viajar para fora da nossa zona habitual é sempre bom, melhora a nossa saúde mental e física, deixa-nos a sensação de que mudamos de vida, mudamos de mundo. E ao viajar com a AEEBNU é ainda melhor porque também o fazemos para encontrar, estar e conviver com amigos.

Viana do Castelo é uma cidade onde o património histórico se desdobra em múltiplas expressões, de entre essa riqueza visitámos alguns monumentos do século XVI, nomeadamente o Chafariz dos paços do conselho, a Casa dos Costa Barros, a casa dos Abreu Távora, as igrejas de São Domingos e da Senhora da Agonia. Do século XVIII, destaco a capela solarenga dos Malheiros Reimão, situada no cimo da rua Gago Coutinho.

Durante a nossa permanência na cidade, visitámos ainda o Museu de Artes Decorativas, o Museu do Traje e o Museu da Fábrica de Chocolates. Estas visitas estavam integradas no nosso programa. Quem visitou o Museu de Artes Decorativas não pôde deixar de se congratular com a beleza das faianças da Fábrica de Louça de Viana (1774-1855), dos azulejos e do mobiliário dos séculos XVII e XVIII. No Museu do Traje, apreciámos o valor histórico e etnográfico do traje à Vianesa. Também passámos pelo Museu Fábrica do Chocolate, onde ficámos a conhecer detalhes sobre a história e o ciclo do grão do chocolate, desde a plantação em terras longínquas até às tabletes e bombons tão apreciados por nós.

Mordomas
Tenho de terminar este texto, mas não posso fazê-lo sem falar das Festas da Senhora da Agonia. Não há gente mais festeira do que as gentes de Viana. Basta olhar para a iluminação das ruas da cidade e para os contornos luminosos das suas capelas e ermidas. Quando a noite caí parecem presépios encantados.

Há quem diga que a beleza é uma coisa sem nome. No entanto, no Desfile da Mordomia e no Cortejo Histórico e Etnográfico a beleza teve nome: brilho, forma, cor e festa. O que vivemos nessas duas tardes de agosto, dos dias 14 e 16, foi único, genuíno e irrepetível. E há momentos cuja beleza às vezes muda a nossa rota dos ventos, ainda que seja por breves instantes. 

“Os trajos pitorescos do Minho, as cores garridas dos lenços e saias, a alvura das camisas de linho, o brilho dos cordoes e das arrecadas, as festas de viola e clarinete acompanhando violancetes, davam a toda esta multidão, que se enfileirava de um e de outro lado da estrada (…) complemento de todos os regozijos populares no Minho, um ar de satisfação indescritível”. Isto disse Júlio Dinis, em “A Morgadinha dos Canaviais (p. 149).

Tenho mesmo de terminar este testemunho, e há um imenso circuito que fica por descrever: a passagem por Vila do Conde, cidade onde o património histórico é riquíssimo. De entre essa riqueza destacam-se as casas manuelinas, erguidas no início do século XVI, cujos detalhes arquitetónicos e decorativos conferem à cidade uma identidade própria.  A visita à casa museu de José Régio, na qual foi possível ver os espaços da casa, bem como várias fotografias individuais que representam diferentes fases da vida do escritor, fotografias de alguns membros da sua família. Vimos ainda o gosto que partilhava com o seu irmão Júlio pelo desenho. Vimos também alguns espelhos de Régio nos quais ele se via “como um doido que por acaso nasceu com juízo”.

Régio não foi apenas um homem religioso, embora ele tenha dito: “não fui outra coisa senão um homem religioso, tudo o mais foram arredores de mim”, talvez, por isso, o seu centro de interesse tenha sido o de colecionar arte sacra.  E isso é visível na casa: as fabulosas coleções de cristos e da Virgem Maria.

Monte de Santa Luzia
Fica ainda por falar da emocionante subida ao Monte de Santa Luzia. Monte sobranceiro à cidade de Viana do Castelo, com vistas de nos tirar o fôlego, onde há cerca de três mil anos viveram povos Celtas e Iberos.

Se quisesse escolher um símbolo para elogiar as iniciativas da AEBNU, escolheria estes versos de José Mário Branco:

Há sempre qualquer coisa que está para acontecer,

Qualquer coisa que eu devia perceber,

(…)

Porquê, não sei,

Mas sei

Que essa coisa é que é linda!

A primeira e última palavra é: obrigada! Obrigada à Dona Olga, ao Sr. Ribeiro Gonçalves, à AEEBNU. É a palavra mais fácil, é a mais justa, é a mais espontânea.

Leonor Santos 

sábado, 21 de dezembro de 2024

Numa tarde qualquer de dezembro

imagem de Catrin Welz-Stein

Numa tarde qualquer de dezembro, estava eu muito sossegadinha, em casa, quando ouvi bater à porta. Eras tu. Perguntaste-me sem peneiras:  “Fazes anos hoje, não fazes?”. Mas não, não fazia. Não me trouxeste flores, nem uma caixa de bombons. Deves ter achado isso uma coisa foleira. Tiraste do bolso umas letras às cores. Primeiro um A, o primeiro da palavra A+M+A+R. A seguir um M, o único de amar. Depois outro A. O segundo de Amar. E por fim o R, o R do fim de amar. Este gesto pareceu-me equivalente ao que se passa no domínio dos sonhos: tudo o que é imaginável, dizem, pode ser sonhado, mas isto nem em sonhos me tinha passado pela cabeça. Numa penada, todo o enigma ficou transparente para o olhar como uma libelinha. Em silêncio, olhava-te muito nos olhos, especada de espanto. Nisto chegou a minha mãe e tu voaste dali para fora e as letras voaram contigo.

Éramos adolescentes e não tínhamos qualquer história. Além disso, na minha geometria sobre o Amor, eu era uma pessoa impreparada para amar. Por isso, aquilo, para mim, teve um carácter de novidade tão grande que me pareceu uma cena saída de um filme de ficção científica.

O que te posso dizer é que aquele teatro que fizeste à minha porta “mexeu comigo”. Fiquei convencida de que estávamos unidos por uma paixão súbita, única e secreta. Essa certeza era bela, mas o que fizeste aproximou-nos e afastou-nos, tudo ao mesmo tempo: passei a evitar cruzar-me contigo e tu, durante muito tempo, não trocaste uma única palavra comigo. Daí que a incerteza de tudo fosse ainda mais bela.

 Leonor

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

UMA CARTA PARA TI

Monte Branco, 20 de Novembro de 1969

A.

Foto: Sally Mann

Estamos em Novembro. Por aqui já se vê o trabalho do Outono: os pássaros mudaram o seu canto, as árvores mostram-se cobertas de tons amarelos e deixam as suas folhas secas voarem ou adormecerem no chão e os ninhos estão agora vazios.

A propósito, lembro-me de um dia de domingo com sol e poças de água a brilhar por todos os lados. Eu ia para a cidade, tu vinhas da cidade. Atiraste uma pedra para uma das poças. Parei e vi o distúrbio que a pedra causou ao entrar na água. A pedra encontrou o seu lugar. Mas a poça nunca mais ficou a mesma.

Há coisas que se alteraram no decurso da nossa correspondência. Coisas que eu não entendo. Não sei – chega-se a um ponto em que a gente já não sabe nada. Mas não é verdade o que tu dizes, quando insinuas que já te esqueci. Sempre que não penso noutra coisa, penso em ti.

Quando te vi partir para Angola, custou-me muito. Doeu-me verdadeiramente. Senti que ia ficar para trás, como uma daquelas meias que a minha mãe guarda no fundo de um cesto. Meias desacertadas à espera do respetivo par. Tenho-me esforçado por investigar o paradeiro de cada uma das meias desaparecidas, que, num golpe de asa, partiram sem deixar rasto. Há um mistério qualquer na fuga dessas meias. Em que lugar da Terra se terão escondido?

Na tua última carta, dizes-me isto: “se não me escreves porque andas a fazer olhinhos a algum maljeitoso, lembra-te que és minha namoradinha”. Estas palavras chegaram, saltaram, rebolaram, fizeram ricochete e caíram em mim como um torvelinho. O mais espantoso é que foste tu que me disseste que, enquanto estivesses em Angola, não tinhas pressa nenhuma em ires ao encontro de Vénus e de Saturno. E que havia coisas na tua vida que se calhar iam ficar entre parêntesis, para não doerem tanto.

Na altura não estranhei o que me disseste. E procurei transformar certas lembranças em universos brancos e distantes. Agora, não sei como, nem porquê e nem quando passei a ser tua “namoradinha”. Também não sei porque usas o lado mais traquinas da palavra “namoradinha”. Seja como for, as palavras não são neutras nas suas implicações, e, assim, esse diminutivo soa-me como um namoro em miniatura. No fundo, um namoro pequenino porque não queres que seja grande. Diz-me, ajuda, se é que podes, se o limite são rosas, conchas ou pássaros…

Leonor

 

terça-feira, 6 de agosto de 2024

Uma carta inesperada

 

Emmanuel Sougez

Monte Branco, domingo, 27 de Julho,1969

A.

Olá. O carteiro entregou-me agora mesmo uma carta tua. E nela não encontro os pontos cardeais que compõem uma carta para uma madrinha de guerra. Afinal de que se fala quando se escreve uma carta dessas? É uma dúvida que tenho.

Falei com a vizinha M sobre o assunto. Gosto muito de falar com ela. Põe a funcionar um mecanismo idêntico ao de alguns insetos, vê o fundo das coisas e vê-as de todos os lados, o que às vezes resulta em conclusões mirabolantes.

A primeira ideia da vizinha é que não se fala de amor.

- Não?

- Porquê?

- É uma coisa que às vezes corre mal. Olha, se os namorados, quando estão juntos, levam a vida a mentir, mostrando um ao outro aquilo que não são, imagina por carta!

- Mas eu acredito no amor. E mais: acredito que tudo é com aquela pessoa, só com aquela pessoa, sem saber do que se trata – sem saber no fundo, o que se quer para além de se desejar estar com ela. O amor é uma coisa instantânea. Não se escolhe. Acontece.

-Uma coisa instantânea? Fica a saber que aquilo a que chamas “instantânea” é apenas uma intrujice da natureza. É por essas e por outras que andamos todos iludidos. A mim, ninguém me convence que o homem e a mulher foram feitos para viverem juntos.

- Isso é demasiado esquisito para ser verdade. De certeza que a natureza nunca faria uma coisa dessas. É Julho. É Verão. E é bom pensar na alegria de não estarmos sozinhos. É bom saber que há alguém querido na nossa vida, que passa de tão mínimo a tão máximo. Isso é magia, não é intrujice. 

- Pois. O melhor é acabarmos com a conversa, sabe-se lá onde nos pode levar. Voltando à tua dúvida sobre o que se escreve a um afilhado de guerra. Chega-se à amizade e isso é tudo. Vive-se um sentimento mais atinado e tranquilo. Sim, porque os militares em África não estão de férias. Vêm de lá com feridas na alma. Nem te passa pela cabeça por aquilo que passam!

A, transcrevo esta conversa, para te dizer que foi a vizinha M que me convenceu a fazer parte do teu séquito de madrinhas de guerra. E não me sinto de modo nenhum envergonhada por ter mudado de ideias. Às vezes, o mais difícil, na vida, é sabermos quais as pontes a atravessar e quais as que não podemos cruzar.

Pela minha parte, apesar de acreditar nas estrelas do meio-dia, vou seguir os conselhos da vizinha. Tu contas-me: o quanto te custa estar na guerra; as tuas experiências de vida aí no Dange; o que fazes no teu dia a dia; o como ocupas os teus tempos livres; as tuas preferências acerca de músicas, de filmes, de livros ou acerca de outra coisa qualquer… E eu devo apoiar-te moralmente. Assim, vou falar-te de nuvens, de constelações, de utopias, de sonhos, de voos de pássaros, enfim, de coisas leves que confortam. Também posso falar-te de futebol. Não percebo nada disso, mas o vizinho Zé, o marido da vizinha M, dá-me umas dicas.

Esta carta já vai longa.É tempo de a terminar. Não me despeço de ti, pois gostava de acreditar na ideia bonita de que entre afilhado e madrinha de guerra não há despedidas, apenas um intervalo até à próxima carta. 

Leonor Santos