Começo
este texto por agradecer a quem projetou e organizou esta viagem ao Alto
Alentejo, em especial à Dona Olga, sempre disponível, sempre atenta, sempre
ativa e sempre critica nos momentos certos. O altruísmo é talvez a palavra que
melhor espelha e que mais justamente se aplica a quem se preocupa tanto em
cuidar de tudo, para que a viagem corra o melhor possível, em benefício de
todos. Não posso deixar de agradecer também ao nosso querido Presidente, o Sr.
Ribeiro Gonçalves. É notável o seu cuidado discreto, mas útil e sempre presente
e indispensável. Devemos tanto à Dona Olga e ao Sr. Ribeiro Gonçalves que
sacrificam o seu quotidiano na dinamização de atividades que todos
beneficiamos, não para se salvarem, como sugere o evangelho, mas nos salvar,
como manda um evangelho ainda melhor. O dia estava lindo, quando saímos, pelas 8h00, da Rua do Arco do Cego em direção a Avis. No percurso, não nos fatigámos, nem cabeceámos a cabeça com sono, nem sentimos tédio. A Dona Olga e a nossa guia, Fernanda Alves, fizeram questão de nos manterem acordados. E isso foi bom. Assim, cruzámos a região alentejana, num deslumbramento de revelação. Vimos encantos particulares: a pura charneca rasa, aparentemente monótona, mas rica de segredos para descobrirmos. O melhor de tudo não foi, durante a viagem, ter desfrutado da emoção deste passeio, foi ter a oportunidade de meditar ao contemplar a paisagem de léguas e léguas de uma geografia única do nosso país. A manhã já vai a meio, e a luz intensa do sol permite distinguir as cores que ora são acastanhadas ora esverdeadas é a natureza que se revela com mais intensidade a esta hora do dia.
Sem darmos por isso, chegámos à vila de Avis. O autocarro entrou pela porta da vila e, de repente, vimos erguer-se uma flor branca e de luz que é Avis. É uma vila encantadora que fica no coração do Distrito de Portalegre. Esta visita era uma enorme promessa, não só porque a pequena vila medieval acolheu uma das mais emblemáticas Ordens Militares, como também foi a morada do Mestre de Avis desde 1364 até 1383.
Aceitemos, sem dificuldade, imaginar o Mestre de Avis sair a galope, do Convento de S. Bento em Avis, no dia 4 ou no dia 5 de dezembro de 1383, em direção a Lisboa, com o objetivo de matar o Conde Andeiro. Foi o que aconteceu no 06 de dezembro, nos aposentos de Leonor Teles. E, assim, teve início o período revolucionário que acabaria em 1385, levando D. João I, Mestre de Avis, ao trono.
O que ganhou particular relevo na visita à vila de Avis e ao Centro Interpretativo da Ordem de Avis foi termos ficado com a sensação de que Avis foi um sonho que Portugal sonhou e concretizou.
Depois desta visita, calcorreámos uma boa parte do antigo casario medieval, com as suas ruas estreitas e as típicas casas alentejanas. Nesse passeio, vimos uma mouraria antiga, na qual havia uma casa, onde terá vivido Dona Teresa Lourenço, mãe do Mestre de Avis, que o acompanhou, quando este, ainda criança, foi residir para Avis. Perguntei-me: o que terá levado D. Pedro I a “atirar” a sua ex-amante, Dona Teresa, para uma Mouraria?
A nossa visita pela vila de Avis terminou no miradouro do Mestre de Avis, com uma vista soberba sobre a parte nova da povoação que se vai estendendo para lá das muralhas medievais e sobre a imensa planície alentejana.
Saímos em direção a Sousel, onde almoçámos no restaurante “O Pinguinhas”. O ambiente era simples. Aqui e ali, a decoração evocava o Alentejo. A receção foi bastante calorosa e com imensa simpatia. E a comida, tipicamente alentejana, agradou bastante.
No dia seguinte, durante a manhã ficámos no hotel e descobrimos que o mesmo estava cheio de surpresas e possibilidades cativantes, como por exemplo, visitas ao Centro Interpretativo do Cavalo de Puro-Sangue e ao Museu de Falcoaria. O hotel tinha uma localização excelente, para quem aprecia um ambiente e paisagem de carácter vincadamente rural. No espaço do hotel, fizemos passeios lúdicos, por trilhos que nos levaram a desfrutar do castanho-dourado da terra, dos verdes dos sobreiros, azinheiras e oliveiras centenárias. Caminhámos e nesse caminhar ouvíamos apenas os sons do campo, dos nossos corpos em movimento, dos pássaros, dos insetos e da folhagem. Lugares como este são pequenos pedaços de sentido que nos dão um outro recorte do universo.
Pois a verdade é que fizemos uma viagem inesquecível pelos acontecimentos históricos da batalha de Atoleiros. Ficámos a saber que Atoleiros foi uma vitória brilhante do engenho dos portugueses sobre a força dos espanhóis. Ficámos ainda a saber os motivos que estiveram na origem desse sucesso: a escolha do campo de batalha, a tática militar, de inspiração inglesa, utilizada por Nuno Álvares Pereira, e claro a valentia lusa. Esta batalha, apesar de não suscitar muito interesse à historiografia, contribuiu e muito para mudar a história de Portugal.
Importa, também, referir o fascínio de vermos o belo e enigmático edifício que acolhe o Centro de Interpretação da Batalha dos Atoleiros, construído em sucessivas camadas de terra vermelha, o que evoca a tradição da construção em taipa, muito comum na arquitetura alentejana.
Não podemos terminar este relato sem falar da nossa visita a Estremoz. Atravessámos a sua praça do tamanho de uma herdade, para irmos visitar o Centro Interpretativo dos bonecos desta linda cidade. Infelizmente o tempo não deu para tudo, e, por isso, não nos foi possível visitar o Castelo de Estremoz, o Paço real de Dom Diniz, a Capela da Rainha Santa Isabel. Rainha que transformava pão em rosas. Ficou a promessa de voltarmos ao Alentejo.
Saramago também conheceu os bonecos de Estremoz e disse isto: “A Estremoz irás, seus bonecos verás, tua alma salvarás”. Não sei se salvamos a nossa alma, ao ver os bonecos de Estremoz, mas uma coisa é certa: “vê-los, encheu-nos a alma”.
Para terminarmos resta dizer isto: qualquer viagem programada pela AAENU desdobra-se sempre numa experiência inesquecível.
Leonor Santos





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