“Saber envelhecer não consiste em permanecer jovem; consiste em extrair da sua própria idade as partículas, as velocidades e as lentidões, os fluxos que constituem a juventude dessa idade.” Li isto num livro de Gilles Deleuze e Felix Guattari, “Mille Plateau”, publicado em 1980.
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| Ruslan Huzau Shutterstock |
Temos assim, que envelhecer é uma questão de ritmo. E o ritmo está nas coisas simples da vida. Está, por exemplo, nos movimentos de um corpo que dança e expressa livremente o que sente. Está no movimento das ondas do mar, no som de uma gota de água que cai quando chove, no sopro do vento nas folhas das árvores, na alternância do dia e da noite, no canto de um merlo. Aceitemos que não há vida sem ritmo e que o ritmo seja uma forma de eterno retorno…
Que quer isto dizer? Trata-se de aderir, em termos de entusiasmo, a uma visão algo ingénua sobre o que é envelhecer. Isto seria mais ou menos assim: Vive! aproveita cada momento que puderes! Tenta transformar as adversidades em "coisas boas!”. Esta fórmula está perpetuada nos seguintes versos de Mário Quintana: “Existe somente uma idade para a gente ser feliz. (…) / Essa idade tão especial e tão única / chama-se presente... /E tem apenas a duração do instante que passa…”. Talvez o caminho devesse ser esse, o de desfrutarmos cada instante, como se estivéssemos sempre no meio da vida.
O mais espantoso é que a fórmula de aproveitar cada instante está errada. Bem vistas as coisas, o instante presente, matematicamente falando, não existe. E o instante passado também não. É que o tempo dos relógios é como um fio de água que não para de correr. Nunca, nunca para, nem mesmo quando dormimos. E é irreversível. Os relógios trazem-nos sempre uma ideia enlouquecida do tempo, um aperto no coração, um desespero mudo. São os relógios que balizam as idades da vida, que marcam o envelhecimento. Ter um relógio é ter um pequeno inferno.
Quanto ao eterno retorno, dir-se-á que existe, mas segundo Camões é inútil e ilusório, porque sempre que a Primavera regressa o encontra mais velho: “O Tempo que se vai não torna mais, / E se torna, não tornam as idades “. Nietzsche vai mais longe e sugere que todas as coisas retornam sem cessar: “E se um dia ou uma noite um demónio se esgueirasse na tua mais solitária solidão e te dissesse: Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e grande na tua vida há de retornar”. O eterno retorno traria, assim, à nossa vida uma dimensão verdadeiramente doida: todos os nossos atos, gestos e palavras seriam repetidos infinitamente.
A tudo isto se pode acrescentar que, apesar do tempo, existe uma margem de incerteza tecida a partir de contingências que marcam a vida de cada um de nós. Assim, o melhor é vivermos apesar de… Apesar de termos de correr atrás das palavras que, de vez enquanto, nos fogem. Apesar de sentirmos que os degraus da nossa casa estão cada vez mais altos. Apesar de sentirmos os invernos cada vez mais frios e os verões cada vez mais quentes. Apesar de não nos sentirmos geniais todos os dias.
Assim, o melhor é vivermos levando a vida a vibrar à flor das mais pequenas coisas, pois tudo ainda nos espera.
Leonor Santos