quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Equipa de futebol da Cruz de Portugal - algumas “estórias” à volta do 1º torneio de Silves - Ano de 1964

Foto de João Gonçalves (Xove): Equipa do Grupo Desportivo da Cruz de Portugal - 1964
De pé da esquerda para a direita: Zé Viola, Fernando A. Simões Santos, Amador Rosa, Manuel João, João Gonçalves (Xove), Zé Sabas.
Em baixo pela mesma ordem: Eduardo Cabrita dos Santos (Fofas), Martinho (Vila Real), Vitorino Nobre Rodrigues, Edmundo Estrela (Caião à Cova) e João Matoso (Xanin).

Alguns seminaristas da zona de Lisboa, passavam férias em Silves, na residência do padre Oliveira. Não sei como nasceu a ideia de organizarem um torneio de futebol juvenil nesta cidade. Tivemos conhecimento desse torneio, onde podiam participar equipas com jogadores com menos de 17 anos e que não tivessem vínculo federativo. Participaram neste torneio, as equipas: Jardim, Cerca da Feira, Académico, Escuteiros, Mata e Cruz de Portugal, num torneio de todos contra todos. Peço desculpa se falta aqui alguma equipa.

Começamos a formar uma equipa de amigos, que ia do Enxerim, Aldeia, Música, Encalhe, Monte Branco e Pinheiro. Formada a equipa, não foi muito difícil escolher o nome, surgiram alguns, conforme a origem dos seus elementos, mas chegamos a um consenso e o nome escolhido foi: GD Cruz de Portugal. Precisávamos dum treinador, ou melhor, uma equipa sem treinador, não é uma equipa de respeito: nome recaiu no Joaquim Cartaxo, que aceitou prontamente o cargo. Depois faltavam os equipamentos, foi o nosso treinador que providenciou junto de outra equipa de Silves, “Os Onze Estrelas”, da qual ele fazia parte (equipamento todo branco - até dizíamos por graça que era o Real Madrid - e com as camisolas devidamente numeradas). Estava completa a equipa e foi só inscrevê-la no torneio.

1ª contrariedade
Fizemos alguns treinos antes do torneio com outras equipas ou grupos de amigos, onde vencemos todos. Mas foi ai que tivemos a 1ª contrariedade, no último treino o “Costa Pereira” (Manuel Albano), não tocou na bola, dada a fragilidade do nosso oponente, no final do treino disse-nos: “eu aqui não brilho, vou jogar para a equipa do Jardim e assim foi, ficamos sem o único guarda-redes que tínhamos. Tivemos que recrutar dentro dos jogadores de campo um guarda-redes, que recaiu no Zé Sabas (que mais tarde chegou jogador dos seniores no Silves Futebol Clube, nesta posição).

2ª Contrariedade
Começou o torneio, no primeiro jogo, à hora do início da partida, tínhamos apenas 9 jogadores. Para completar a equipa faltavam 2 jogadores, sendo um deles, o Zé Sabas que devido à transferência de última hora era no nosso guarda-redes. O Sabas andava a trabalhar durante as férias escolares de verão. Tivemos, durante um período de cerca de 10 minutos, recrutar outro jogador para a baliza, terá sido o João Xove, mas não tenho a certeza. Montamos durante esse tempo um sistema defensivo que nos permitiu aguentar o resultado em branco, entretanto chegaram os jogadores que faltavam e a equipa ficou completa. Ganhámos esse jogo, não recordo contra que equipa, nem por que resultado.

A vingança
O Manuel Albano que nos tinha abandonado, segundo ele, porque não brilhava na nossa equipa, transferiu-se para a equipa do Jardim, pouco antes do início do torneio ter começado. No jogo que realizámos contra esta equipa, começámos em desvantagem, perdíamos por 0-1 no final da primeira parte. O jogo estava difícil, com perspetivas de o perdermos e consequentemente perder o torneio para o nosso maior rival. No início da segunda parte beneficiámos de um penalty (hoje, grande penalidade), o João Xove, agarrou a bola e disse: vou-me vingar! Converteu-a em golo e disse: nem que fosses o Costa Pereira (este guarda redes, jogava na altura no Benfica e era considerado o melhor naquela posição: internacional por Portugal e campeão europeu pela sua equipa). Acabámos por marcar mais um golo e vencemos o jogo.

A Taça
No final do último jogo, consumou-se a vitória do GD da Cruz de Portugal, só com vitórias. Surpresa total, a taça não apareceu e ficámos muitos desiludidos. Não ficámos quietos, nem era essa a nossa postura, imaginamos logo como a devíamos recuperar: então, decidimos ir até à residência do prior padre Oliveira e reivindicar o troféu. O pessoal todo empoleirado em cima dos muros a pedir para lhe ser entregue a taça. Ao fim de algum tempo apareceu a taça, entregue por um dos seminaristas. O problema é que depois de termos a taça em nosso poder não sabíamos o que fazer com ela, que tanto tínhamos desejado: não tínhamos sede, colocou-se a hipótese da taça ser entregue ao treinador Joaquim Cartaxo, outros diziam que deveria ficar na “música”, sociedade filarmónica, mas a maioria não concordava nem com uma, nem com outra solução. Apareceu então um jogador, o Eduardo Fofas, que se responsabilizou por ficar com a TAÇA.

Eduardo, hoje estás encarregado de marcar um almoço com toda a equipa (penso que ainda estão todos entre nós), levares a taça, para tirarmos uma foto, que não foi possível nessa altura.

F.Santos – Memórias da Juventude
12 de fevereiro de 2020

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

O Gregorinho “denegriu” a minha imagem, como estudante da Escola Primária da Fonte Figueira

Durante um almoço de antigos alunos da Escola Primária da Fonte Figueira, no verão de 2018, o Gregorinho, meu amigo de infância, recordou várias peripécias que aconteceram durante o tempo em que frequentámos esta escola. Vou contar uma dessas “estórias”.

 
Caderno escolar (o meu devia estar pior do que este, segundo a descrição do Gregorinho)

Dizia o Gregorinho, que eu só brincava e que era um estudante "baldas", ali na presença de todos aqueles amigos "denegriu" a minha imagem, que eu tanto fazia por manter limpa. Nas palavras dele: "os teus cadernos, eram torcidas enroladas e todos sebentos, quase não se percebia o que estava lá escrito"; mais à frente remata com esta frase: "a professora pediu-te mais de dez vezes o Bilhete de Identidade e só o trouxeste quando ela te ameaçou que não te levava a exame". 

De facto nunca fui um aluno "arrumadinho e penteadinho", talvez ele tenha alguma razão, mas aqui há uma contradição com a opinião da professora: ou eu não era tanto assim como ele descreve, ou tinha muita arte para enganá-la. O discurso na voz da professora, D. Maria Alves, numa visita que efetuei, no verão de 2016: "tu eras o meu aluno preferido"; e continuou: "no exame de admissão que fizeste à escola de Silves, o diretor fez-te muitas perguntas e tu ias respondendo a todas, até que ele te perguntou: 'o que é que queres que eu te pergunto mais?' e, tu respondeste: 'na sei!', finalmente havia uma pergunta que não sabias".

Como se pode ser o aluno "preferido" da professora, nas circunstâncias descritas pelo Gregorinho? Exagerou com certeza na descrição, tal como a professora terá exagerado na apreciação que fez, talvez para me agradar.


Obrigado Gregorinho por teres trazido esta “estória”, passados mais de 60 anos. Um abraço!

F. Santos – Memórias de Infância
28 de janeiro de 2020
 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Invasão de Marcianos na Charneca de Torre Cercas

Durante o almoço de antigos alunos da Escola Primária da Fonte Figueira, o Gregorinho, meu amigo de infância, recordou várias peripécias que aconteceram durante o tempo em que frequentámos esta escola. Vou passar a contar uma dessas memórias.
 
Foto Green Trekker
Desta memória, sinceramente, não me recordava: tínhamos brincado com outros colegas, até de noite, - aqui acho que ele não exagera nada, porque isso acontecia frequentemente -, talvez tivéssemos andado na labuta para construir algumas "barragens", ou então tido outra brincadeira qualquer que nos entusiasmou. Regressávamos a casa já era noite cerrada, estava um escuro que não nos deixava ver nada, nisto, quando seguíamos pelo "carreiro" que nos conduzia até à casa dele, vislumbrámos no valado em frente à casa dos irmãos Sequeira e da Isilda, umas luzinhas às centenas, talvez aos milhares. O Gregorinho tinha ouvido umas "estórias" de "Marcianos", então, com a sua fértil imaginação, pensou que estaríamos perante uma invasão da terra, por aqueles seres. Todo ele tremia de medo, imagino o que teria acontecido se não tivesse a minha companhia. Eu não me terei preocupado muito, porque esqueci de todo este episódio. Nestas situações rumava sempre até à casa do meu tio Manuel Anselmo, pai do meu primo Vítor Simões, que ficava na encosta em frente, como normalmente sempre acontecia. Certamente, ter-me-á feito companhia até à minha casa, aproveitando também, para desfrutar de mais um serão à lareira.

O Gregorinho diz que o pai se zangou com ele por ter chegado tarde a casa e não ter ficado "convencido" com a desculpa. Mas eu acho que ele apanhou, foi uma grande "sova" (estou-me a vingar, Gregorinho, por teres denegrido a minha imagem na outra memória!).
 
Terminada toda esta aventura, vamos lá saber o que eram todos aqueles "Marcianos”! Eram nem mais nem menos luzicus, também conhecidos por pirilampos, que inundavam os valados da charneca de Torre e Cercas, em algumas épocas do ano.

F. Santos – Memórias de Infância
16 de dezembro de 2019