(Publicado no Contacto (boletim da AAE do BNU) de abril)
Ao redigir um texto, não sabemos que palavras nos fazem mais falta, que portas se abrem enquanto o escrevemos, a sós connosco, em momentos de luz e de sombra, à espera de encontrar nesse processo um fio de inspiração.
O melhor é fazer uma pausa, abrir um dicionário e escolher uma letra, uma letra qualquer, pode ser a letra L, com a palavra “Leveza” (s. f). Registamos alguns significados, como por exemplo, “qualidade do que é leve, ágil, divertido, alegre; …”. Será esta a palavra oportuna que vem em nosso auxílio para a escrita deste texto? Será isto um delírio nosso? Uma só palavra pode dar lugar a vários sentidos, e a várias construções possíveis. E, às vezes, basta uma palavra, uma palavra apenas para mudar o rumo de uma vida, para o bem ou para o mal.
Não é o caso da palavra “leveza” que opera como uma espécie de metáfora, guiada pela ideia de “voo da ave”. Leveza tem “o pássaro: e a sua sombra voante, mais leve. / E o que se lembra, ouvindo-se deslizar o seu canto, mais leve” (Cecília Meireles).
A partir daqui, resta o dizer do texto – isto é o essencial: falar da viagem que fizemos, com a AAE BNU, entre o Arco do Cego e Mangualde. Mas falar desta viagem é falar de leveza. Porque o texto não se deve preocupar, apenas, com a apresentação da paisagem, com a narrativa das coisas, com a história do trajeto, mas deve expressar sobretudo as emoções que experimentamos durante a viagem. É como na utopia, só o que é vivido conta, só a amizade conta, e para isso não é preciso bússola.
O autocarro está pronto para seguir viagem – e, no interior, tudo começa a acontecer: as boas-vindas da Dona Olga, a gargalhada e toda uma animação inventada pela nossa Diretora, para tornar leve o caminho a percorrer. Todavia, no exterior, chove. Não é a “chuva oblíqua” do poema emblemático de Álvaro de Campos, pois aí o tema nem sequer é a chuva, mas a busca de si mesmo, através de um complexo jogo de paradoxos. Também não é “a chuva abandonada” de Vergílio Ferreira, onde o lugar do sujeito é aquele que expressa a melancolia face à “memória estranha de outrora”. Nem tão pouco a chuva morrente de Camilo Pessanha, triste no seu modo de cair, de “cair sempre a cair", de escorrer da beira dos telhados. “Como chove!”, disse Bernardo Soares, no seu “Livro do Desassossego” “as biqueiras golfam torrentes mínimas de águas sempre súbitas”.
Sim, chove, mas isso que importa se a chuva que caí não é triste nem alegre. É apenas chuva que desliza pelos vidros do autocarro, numa estranha neutralidade, indiferente ao olhar de quem a observava. Olhar as gotículas de água seguirem, em desalinho, o seu curso, rolando, rolando até desaparecerem, leva-nos a pensar isto: é bom saber optar pelas coisas da vida que nos deixam memórias de alegria.
No interior do autocarro, há todo um idioma leve de olhares que se cruzam, sorriem e manifestam afetos. A viagem continua… E se alguém adormecer, uma deusa virá segurar-lhe as pálpebras.
Entretanto, quase sem darmos por isso, chegamos ao topo do monte da Senhora do Castelo, onde fica o nosso hotel. E deparamo-nos com um cenário semelhante ao que Thomas Mann descreve na “Montanha Mágica” sobre Davos: “O céu abria-se parcialmente. Nuvens de um cinzento-azulado rasgavam-se e deixavam passar alguns raios de sol que tingiam a paisagem de azul. A seguir, o tempo serenou por completo. Reinava (…) um frio límpido, um esplendor invernal, puro e constante. Era maravilhoso o panorama que se via (…)”. Sim, “era maravilhoso o panorama que se via”, do hotel. Da janela do quarto, tínhamos uma imagem vertical sobre a encosta que nos dava a sensação de flutuarmos.
À noite, durante o jantar, abrimos o mapa da sala para dançar. “Faz-te dançarino se queres ser leve e profundo no pensar”, terá dito Nietzsche. Na verdade, na dança o corpo torna-se sopro, mas será que o nosso pensar é mais profundo se nos fizermos dançarinos? Não sei… o que sei é que, na dança, procuramos criar espaços e gestos de diversas possibilidades, seguindo um fio secreto, onde tentamos encontrar o movimento ideal.
O dia apaga as promessas da noite. E, ao acordarmos, há uma luz ténue, em tons de prata no céu. Não chove! Às vezes, basta um breve raio de sol na natureza e, aos nossos olhos, tudo se transforma! Essa mudança também leva a uma mudança nos nossos sentimentos e no nosso humor. Como se o mundo da luz e das cores influenciasse os nossos sentidos. E sabemos que influencia.
Após o pequeno-almoço, subimos até ao Miradouro da Senhora do Castelo. Daqui, vê-se uma paisagem coberta por uma névoa fina que nos faz lembrar uma pintura de Caspar David Friedrich. O olho e a fantasia sentem-se atraídos mais pela distância imprecisa do que pelo que se apresenta perto e distinto. A sensação de infinito e de sublime fazem-nos sentir pequeninos perante tanta beleza. “Lá longe, a Serra da Estrela”, isto diz Manuel Louvadeus, protagonista do romance “Quando os lobos uivam” de Aquilino Ribeiro: “nem sei o que parece… uma gigantona que se cobriu com uma capucha e se deitou ao comprido, cabeça para a Guarda, pés para o mar. Fita a gente, como se a gente olhasse para ela. Quase se podia meter paleio de cá para lá. Havia de dizê-las bonitas se soubesse contar o que tem visto pelos tempos fora em céu e terra!”. É preciso ter uma experiência profunda da Serra, conhecer-lhe todos os caminhos e todas as possibilidades para falar assim de um sítio que tem o privilégio de ser o ponto mais alto do país. É por isso uma entidade singular que molda os homens que a habitam, tal como o mar molda os homens do litoral.
A marcar também esta viagem, foi a visita a uma casa senhorial, que a Dona Olga, felizmente, conseguiu incluir no programa. A casa identificada historicamente “palácio dos Condes de Anadia” representa um dos relevantes bens culturais e patrimoniais do Barroco. A sua construção teve início no primeiro quartel do século XVIII, no município de Mangualde.
De acordo com o guia que conduziu a visita no interior da casa, ficámos a saber que estas propriedades não eram apenas residências, mas também centros de poder e de influência. Com efeito, em alguns espaços da casa foi possível ver retratos de reis e rainhas que foram recibos, no palácio, pelos condes de Anadia, nomeadamente, o Rei Dom Luís I, a Rainha Dona Maria Pia e a Dona Amália. Curiosamente, existe também um retrato do general napoleónico Massena, que terá ocupado a casa, em 1810, durante a terceira invasão francesa a Portugal.
Dentro da casa, o que mais nos chamou a atenção foi a coleção de azulejos. A escadaria da entrada está decorada com painéis que representam cenas alusivas à caça, a trabalhos agrícolas e a figuras mitológicas. No salão de baile, fomos surpreendidos com painéis que apresentam “O Mundo às Avessas”, uma iconografia maravilhosa que desafia o status quo da sociedade. Exemplo disso são as figurações das cidades no céu, os animais a caçar e a subjugar os homens, os filhos a castigarem e alimentarem os pais.
ENQUANTO VAMOS
“É só a vida tudo o que não temos
ou deixamos para trás enquanto vamos
e nada mais nos falta nem buscamos
porque é a vida só o que não temos” (Miguel Serras Pereira)
~Então o melhor é irmos, irmos sempre com a nossa AAE BNU.
Leonor Santos

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