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| Robert Mapplethorpe |
“Como perder amigos rapidamente” é o título do mais recente livro de David Marçal, prestigiado cientista português. Ao lê-lo, estaquei e pus-me a imaginar modos cómicos, não de fazer amigos rapidamente, mas de os perder rapidamente. É tristemente verdade que todos nós já tivemos amigos que, pura e simplesmente, deixaram de estar na nossa onda, ou não nos apreciam, ou os desiludimos ou nos desiludiram. Neste caso, é curioso, é mesmo comovente ver até que ponto um amigo próximo, se pode transformar, de um momento para o outro, num ex-amigo.
Reparem que não me refiro àqueles amigos que vão e vêm, estão presentes na nossa vida, anos e anos, mas aos poucos, com o afastamento, com a falta de contacto, parece que os perdemos definitivamente. Porém, um dia, depois de vinte anos de ausência, um telefonema, uma mensagem, um convite para nos vermos, abraçamo-nos, com enorme alegria e sem qualquer ressentimento. A par disso, há ainda aquelas pessoas de quem gostamos, que, por circunstâncias várias, vão desaparecendo da nossa vida. Também temos amigos, com suficiente subtileza de espírito, que na incompreensão de um equívoco ou de um mal-entendido abrem espaço para o diálogo e, na liquidez de uma conversa, dilui-se tudo o que poderia impedir uma amizade duradoura.
Mas entendamo-nos bem: quando se trata de um ex-amigo, a situação é completamente diferente. Desde logo, o fim de uma amizade surge sempre por alguma razão e nunca por razão nenhuma. O que há de muito estranho, reconheço, é que tudo termina num ápice, como a implosão de um edifício em ruínas. Esse momento, tão rápido, carrega consigo toda uma série de circunstâncias, um complexo de emoções e de ideias que só o distanciamento permite compreender algumas delas.
Pergunto-me o que é que resta depois. E é aqui que devo dizer o mais importante: o fim de uma amizade é uma geografia de perda, um capítulo que se fecha para sempre. Devia retrair-me a dizer para sempre, mas tenho um sentimento muito profundo de que quando uma amizade termina todas as palavras são inúteis e erradas, exceto o silêncio. Enquanto isso, nós podemos falar de um ex-marido, de um ex-namorado, mas nunca, nunca falamos de um ex-amigo. Podemos então dizer que se existisse uma matemática da ex amizade, enunciaria mais coisa menos coisa, a seguinte equação: a probabilidade de uma reconciliação é igual ao seu grau de improbabilidade.
Leonor Santos

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